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Gerenciamento de Riscos Pandemia e Epidemia

QUEM FAZ GESTÃO DE CRISE É O GESTOR DE RISCO, NÃO UM INFECTOLOGISTA

Ficar em casa 15 dias é compreensível e aceitável, o que não é aceitável é que isso não produza nenhum efeito para salvar os idosos.

Este artigo não pretende entrar no “FlaxFlu” político, nem defender nenhum lado, afinal nem entre os infectologistas há consenso. Mas busca jogar luz para questões não respondidas que precisam ser debatidas e impactam diretamente no efeito manada que a sociedade de todo mundo parece seguir. Já diz o provérbio português, “Em casa que falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Aqui no Brasil, nessa questão da pandemia de Coronavírus, estamos observando pela televisão uma enorme confusão. Esqueceram a gestão de risco – o que não é difícil de ocorrer na sociedade brasileira, com a cultura do “faz e depois vê como fica” – e, portanto, falham gravemente na gestão de crise!

Ninguém entendeu ainda que as medidas tomadas, muitas delas provocando graves consequências na vida de todos, estão baseadas nas informações ainda escassas dos médicos. Há quem exagere e diga ser uma histeria, o que também é um grande erro. Mas há quem questione se essas soluções estão adequadas, eu inclusive. Quando aglomeram pessoas em transportes, quando convocam uma vacinação e faltam vacinas nos postos, temos escancarada a falta de gestão de crise latente. Vamos analisar o que sabemos até aqui e os erros de gestão de riscos por pura falta de liderança e organização em todas as esferas da federação.

1) As informações dos médicos infectologistas, da OMS e outras fontes, são essas que usamos para tomar decisões:

O que os infectologistas nos ensinaram até aqui?

a) Que o vírus deriva do transbordamento (spillover) de zoonoses para os seres humanos, originalmente na China.

b) Que o vírus SARS-CoV2 (Coronavírus) tem uma taxa de contágio de 1 portador infectar em média outras 2,7 pessoas (Fonte: OMS, baseado na experiência da Coréia do Sul). Uma velocidade menor que o observado no Sarampo ou no Ebola, mesmo assim a COVID-19 é capaz de a partir de 1 infectado alcançarmos 615 doentes em uma semana, 378.056 doentes na 2ª semana, 232.401.717 infectados na 3ª semana, e assim por diante, crescendo em progressão geométrica.

c) Que o SARS-CoV2 se transmite 90% através de gotículas de secreções humanas (saliva, coriza, etc) dos infectados, ou pelo contato das mãos – que levem ao rosto – o vírus encontrado em contato com superfícies (mesas, botões, cartões de crédito, maçanetas, etc) que tenham sido contaminadas ou a própria mão de outra pessoa infectada. Sendo que os outros 10% (Fonte: Medical News Today) da transmissão se dá com pessoas portadoras do vírus ainda sem manifestar os sintomas (incubado).

d) Que o SARS-CoV2 sobrevive em superfícies por algumas horas ou até 10 dias, dependendo do material (superfície) onde está depositado, bem como da temperatura ambiente.

e) Que, pelos motivos citados acima, devemos lavar as mãos (usar álcool gel quando em local de difícil acesso a água e sabão), que devemos evitar tocar o rosto, que devemos ficar afastados por mais de 1 metro de outras pessoas, cobrir a boca ao tossir ou espirrar, usar máscaras, evitar aglomeração, que devemos evitar compartilhar objetos pessoais, isolamento dos doentes, quarentena para a população, etc.

f) Que não há vacina (demorará 1 ano pelo menos) e que não temos medicação ou tratamento específico para a COVID-19. As medidas tomadas acima objetivam apenas reduzir a velocidade do crescimento na curva de contaminados e consequente colapso do sistema de saúde do país.

g) Que os sintomas são semelhantes a uma gripe: tosse, coriza, febre, dor de cabeça, dor de garganta. Que pode evoluir para uma pneumonia e agravamento ou falência do sistema respiratório. Que numa criança pode ser imperceptível enquanto num idoso pode ser fatal.

h) Que o período de incubação – seguindo a fonte da OMS – em geral é de 5 dias em média, sendo que a própria OMS dá um desvio-padrão (variação) de até 14 dias. E que mesmo sem os sintomas a pessoa pode transmitir o vírus (suspeita-se em 10% das transmissões observadas conforme o Medical News Today).

i) Que os casos mais graves que se curaram levaram em média 30 dias até a alta médica.

j) Que a reação inicial à epidemia do Coronavírus nos diferentes países é a razão do seu sucesso ou fracassso, pelas diferenças observadas nos bons exemplos como: Alemanha, Coréia do Sul e Singapura.

k) Que a taxa de mortalidade varia com o perfil etário da população e outras questões, mas observamos até 23 de março, do total de pessoas confirmadas com COVID-19, os óbitos foram: 1,33% na Coreia do Sul, 0,42% na Alemanha, 4% na China, 6,8% na Espanha, 7,8% no Irã, 9,51% na Itália. Fonte: The Centre for Evidence-Based Medicine (Universidade de Oxford).

l) Que as faixas etárias (conforme amostra do que ocorreu na China) mais afetadas com óbitos são: de 60 à 69 anos, 3,6%; de 70 à 79 anos, 8% e de 80 anos em diante, 14,8%.

Sabemos disso tudo. O que falta aos médicos infectologistas responderem:

Uma pessoa imunizada, que se curou da doença, pode voltar a adquirir a COVID-19 ? No Japão, segundo a BBC de Londres, houve uma recidiva em um homem de 70 anos alguns dias após ter recebido alta. Em Portugal eu suspeito haver casos semelhantes, ainda a serem confirmados.

Uma pessoa curada da COVID-19 pode permanecer transmitindo o vírus SARS-CoV2 ? Acredita-se que não.

O SARS-CoV2 pode ser transmitido suspenso no ar (aerossol) ou apenas em gotículas? Não está pacificado entre os infectologistas, restam pesquisas a serem publicadas. Mas isso afeta muito na prevenção amplamente divulgada.

Essas respostas são fundamentais para termos a definição das medidas e o prazo que devemos adotá-las. Se alguma dessas respostas às questões levantadas acima for sim, a quarentena que traz problemas econômicos e psicológicos imensos à população, é inócua. Terá efeito exclusivo de retardar o contágio e atrasar o colapso do sistema de saúde. O fato é que não temos essas respostas claras. E se há recidiva para o COVID-19, o isolamento dos idosos ou portadores de cormobidades deverá ser permanente até que se encontre uma vacina! E de nada adianta parar todos os demais, salvo proteger o sistema de saúde.

2) Sobre as medidas de isolamento social (quarentena):

Aqui termina a medicina ou biologia e entra a administração, a logística, a gestão em si. O primeiro erro observado, logo no início da epidemia no Brasil, foi paralisar as escolas sem paralisar os trabalhos dos pais. Na sequência tivemos a redução da frota do transporte público, sem uma coordenada paralisação do trabalho das pessoas, fazendo lotar os veículos que restaram e, portanto, gerando aglomeração e contribuindo ainda mais para a pandemia.

A forma desorganizada e desalinhada da paralização das diferentes cidades foi outro equívoco. Criando ondas de transmissão do vírus atemporais. Quando uma melhorar outra piora, depois elas se comunicam e novas ondas da epidemia aparecerão.

Não houve nenhum estímulo às empresas para operar em home-office. Poderiam ter eliminado (temporariamente) os impostos de laptops e smartphones, facilitar as entregas através de prioridade no correio e facilitar a importação. O prejuízo econômico teria sido reduzido em alguns aspectos, ao menos nas atividades econômicas que podem operar em home-office.

Houve ausência completa de avisos claros e com antecedência de quando determinadas medidas iriam ocorrer: fechamentos de comércio, de estradas, do transporte público, etc. Deixando a população desprevenida e atordoada. Talvez por não inexistir um discurso único e alinhado de governadores, prefeitos e presidente. Confundindo a população pela ausência de uma comunicação clara. Hoje ninguém tem uma previsão de quando sairemos dessa quarentena gerando ainda mais aflição e estresse na população, além dos danos econômicos elevados.

Não fechar as fronteiras ou pelo menos colocar em quarentena todos os novos entrantes no país foi um erro. Tivemos apenas a quarentena dos brasileiros trazidos da China. Mas os turistas e viajantes de todas as partes do mundo, em especial da Europa, continuaram entrando livremente e sem testes no país. Essa deveria ter sido a 1a medida. Bem como limitar o trânsito interno entre Estados simultaneamente. Assim eliminando a transmissão do vírus em cidades e regiões ainda não atingidas.

3) Sobre a força tarefa para combater o vírus e aumentar a infraestrutura do sistema de saúde.

Demoramos demais a ver estímulos para a indústria na produção de álcool gel, insumos para os testes, fabricação de testes, remédios para insuficiência respiratória, a que existe é de iniciativas privadas. Não houve redução de impostos, tarifas de importação, ajuda no transporte e na logística através de correios e exército, etc. Isso vem sendo feito lentamente e aos poucos pelo governo federal.

Ainda não usamos extensivamente as forças armadas para coordenar as barreiras nas estradas, para montar hospitais de campanha, transportar insumos e equipamentos.

A fabricação de testes também é muito importante, e só percebemos os estímulos iniciando 30 dias após a confirmação do primeiro caso. Os países que mais testaram (Alemanha e Coréia do Sul, por exemplo) no início da epidemia, são os que se saíram melhor. A liberação da quarentena precisa acompanhar o volume de testes na população.

A vacinação para a gripe é outra demonstração de ausência total de gestão e organização. Faltam vacinas em determinadas cidades, as filas e aglomerações ocorreram em diversas outras, etc. Logo este que é um ponto onde o Brasil é referência mundial, na questão das vacinas, estamos deixando a desejar.

4) Sobre a questão econômica:

Precisamos facilitar e estimular o crédito para as empresas que são afetadas pelas paralizações. Eliminar impostos, encargos sobre folha salarial, por período de 6 meses (obviamente com Estado de Calamidade decretado e permissão para os gastos). Aumentar a liquidez e facilitar a tomada de capital de giro. Mesmo após a volta da quarentena teremos muita recessão, pois as pessoas terão medo de consumir. Portanto, o remédio não pode matar (de fome) mais que o próprio vírus. O nosso nível de desemprego já é muito elevado, e tende a piorar. Não há programa social que substitua o emprego. Esta semana o BACEN e o BNDES tomaram algumas medidas para trazer liquidez e fôlego à economia, resta saber se serão suficientes.

É óbvio que uma única vida salva já justificaria todo esforço do país. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil, em 2016, tinha a 5ª maior população idosa do mundo e, em 2017, a população com 60 anos ou mais somou 30,2 milhões. No pior cenário, se todos forem infectados e tivermos a triste taxa de mortalidade de 14,8% (usando a pior taxa para maiores de 80 anos), teremos sim um cenário de terra arrasada com 4,5 milhões de mortos. Temos que pesar que falamos do pior cenário possível, não do cenário provável, no último relatório da OMS, de número 64 publicado em 24 de março de 2020, tivemos 16.231 mortes em todo o planeta. Sendo que na China houve 3.283 mortes, na Itália (até aquela data) houve 6.077 mortes. Portanto, muito longe da especulação alarmista de 4,5 milhões (que é o pior cenário possível, mas não o real), no entanto, nota-se aqui a gravidade dessa epidemia uma vez que ninguém quer noticiar tantas mortes. Mesmo assim não devemos esquecer o outro lado da moeda, que no país temos 12 milhões de desempregados, uma renda per-capita que nos coloca em 50º lugar no planeta (dados do FMI). Nossa péssima distribuição de renda, segundo o jornal Valor Econômico de 06/11/2019, 52 milhões (1 em cada 4) brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza. Quando se determina sem nenhum critério técnico exato (uma vez que os médicos e cientistas ainda não responderam as questões levantadas aqui anteriormente) que devemos ficar 1 mês, ou 3 meses ou mais tempo parados, está se fazendo uma escolha que talvez não resolva a pandemia e a respectiva quantidade significativa de óbitos, mas certamente arruinará a economia. E a fome também mata! E isso precisa ser tratado.

Todos os dias vemos pessoas se deslocando pelas ruas das cidades em quarentena (principalmente São Paulo e Rio de Janeiro). As ruas estão “vazias” (literalmente entre aspas) em termos. Milhares de pessoas tem emprego que de alguma forma está conectada à cadeia de combate ao vírus, além dos profissionais de saúde, os policiais, os funcionários de manutenção (geradores, elevadores, etc), as equipes de telefonia, jornalistas, as fábricas de máscaras, fábricas de álcool gel, o pessoal embarcado em plataformas de petróleo, os zeladores de condomínios, as babás e os cuidadores de idosos, bancários, milhares de outros profissionais seguem suas rotinas e se deslocam pelas cidades interagindo com outras pessoas. Então essa paralização nunca será completa. Sendo assim, continuaremos tendo a transmissão do coronavírus na sociedade. Nas comunidades carentes temos alguns agravantes, há falta de água e aglomeração de pessoas, como é possível combater a pandemia nessas condições? Salvo raras atitudes heroicas de voluntários que buscam distribuir itens de higiene.

Segundo o Ministério da Saúde, a economia somente começara a voltar à normalidade após 50% da população ter contraído o vírus, fica então a dúvida: para alcançar 100 milhões de pessoas portadoras do vírus, a uma taxa de crescimento de 30% de novos infectados ao dia, e partindo do número de 2.201 casos em 24 de março, serão necessários 10 anos? Ficaremos em casa todo esse tempo? Aqui é matemática pura, é óbvio que não ficaremos tanto tempo assim, então não é verdade que estamos buscando um crescimento de 30% dos casos ao dia, ou não vamos voltar à normalidade com metade da população portando o vírus. Portanto, se na verdade queremos simplesmente reduzir a curva de pacientes buscando atendimento no sistema de saúde, qual é o número de novos infectados ao dia viável, uma vez que 30% não é? E quem será escolhido para se infectar primeiro? Parece a escolha de Sofia.

Logicamente que soluções organizadas com gestão de crise e um plano de continuidade de negócios (temos uma norma técnica que formaliza isso, ABNT NBR ISO 22301:2013 e ABNT NBR ISO 22313:2015) teríamos menor estresse dos mercados, menor volatividade dos ativos, etc. Tudo se resume a geração de expectativas e planejamento.

É óbvio que tivemos avanços e nossa sociedade aos poucos vai se organizando. Mas tudo isso demonstra uma ausência completa de foco, planejamento e gestão de riscos. Mas não podemos ter uma disputa política entre Prefeituras, Estados e Federação, onde cada um faz o que quer e quem se prejudica é a sociedade. Também é inaceitável qualquer esforço e prejuízo (econômico, psicológico, etc) sem que isso traga – de fato – a salvação dos idosos ou a proteção da sociedade. E essas respostas os infectologistas não tem ainda.

Qual o maior risco dessa pandemia do COVID-19? Perder as vidas de idosos e pessoas com comorbidades, e isso é inaceitável sim. As medidas tomadas salvam essas vidas? Talvez não. Qual outra medida pode ser tomada? Lockdown seletivo (vertical e nào horizontal)? Como isso seria feito? Quanto tempo até produzirem uma vacina que nos proteja definitivamente? Nesse momento, os infectologistas ajudam muito, mas quem organiza são os gestores de riscos. A recessão também mata, e talvez mais que a COVID-19!

Por Gustavo Cunha Mello

Prof. Gustavo Cunha Mello, Economista, com MBA em Gerenciamento de Riscos pela COPPE-UFRJ, Pós Graduação em Engenharia de Planejamento pela COPPE-UFRJ e Mestrado em Engenharia de Produção – Sistemas de Gestão pelo Latec-UFF. Gerente de Riscos, Corretor de Seguros, Perito Judicial e Investigador de Acidentes. Professor desde 2000 da Escola Nacional de Seguros – Funenseg – nos cursos técnicos e no MBA de seguros. Também é professor da UFF e do IBMEC nos MBAs de gerenciamento de riscos e gestão de projetos (PMBOK). Membro de Comitês na ABNT. Trabalha há 30 anos no setor de seguros e na consultoria de gerenciamento de riscos. Tendo concluído diversos cursos de seguros e análise de riscos no Brasil e no exterior através do AICPCU/IAA - American Institute for Chartered Property Casualty Underwriters and the Insurance Institute of America - Malvern - Pennsylvania, bem como cursos de Resseguros executados no Lloyds de Londres pelo CII – Chartered Insurance Institute. É articulista de diversas mídias especializadas em seguros e gerenciamento de riscos, bem como da Globonews e Bandnews na área de gerenciamento de riscos.

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